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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo

Sinopse: Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, comovente, "Olhai os Lírios do Campo" é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida.

"Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se no Mundo e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição transformava-os em inimigos. E havia muitos séculos tinham crucificado um profeta que se esforçara por lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos."

"Olhai os lírios do Campo é um dos livros mais famosos de Érico Veríssimo, escritor regionalista do Rio Grande do Sul, e foi publicado em 1938 - época da segunda fase do modernismo. O livro se divide em duas partes, sendo a primeira parte em dois modos, o presente e o passado e a segunda parte, segue no presente. Só em ler o título do livro, já nos faz refletir, pois já se percebe que a história trata de conflitos humanos, aprendizagem, reflexão, mas ao se ler a obra essa visão se torna mais ampla, e percebe no enredo um lirismo poético, ficando na realidade, nas decisões e medos humanos. Um livro que retrata, emoção, tristeza, saudade e muito mais.

Eugênio recebe um telefonema, Olívia precisa dele, ela está morrendo, ele não sabe o que dizer a esposa, simplesmente sai com remorsos se sentindo horrível, mas precisa ver Olívia, enquanto seu motorista o leva ao hospital, Eugênio revive em sua mente cenas da sua vida que lhe ficaram na memória e jamais desapareceriam. Em seus pensamentos passam imagem de sua infância triste e pobre, quando tinha pena e vergonha de seu pai pobre, e era humilhado na escola por suas roupas rasgadas e posição social.

Quando entrou na Faculdade de Medicina, pois seus pais queriam que ele não se tornasse um vagabundo como seu irmão Ernesto, o filho mais velho, mas mesmo convivendo com os ricos ele se sentia inferior, um ninguém, um verme, e odiava a todos por isso, a si mesmo por sentir vergonha dos pais, nunca estava feliz. Mas quando se formou vei a insatisfação, porém conhece Olívia, que também se formou em Medicina juntamente com ele, eles se tornam grande amigos e depois eles vivem um romance especial. Porém Olívia recebe uma proposta para trabalhar em Nova Itália, ela aceita, mas é por pouco tempo.

Em um dos seus atendimentos médicos, ele atende uma das empregadas de Eunice, na casa do Sintra, Eunice o provoca e sente um fascínio por ele, e não desiste enquanto ele não lhe der a devida atenção que ela merece, eles começam a namorar, Eugênio fascinado pelo mundo deslumbrante da moça, cheio de riquezas e pessoas frívolas ele ver uma oportunidade de sair do anonimato e possuir muito dinheiro, ele se casa com Eunice por puro interesse.
Três anos depois ele se vê preso a um casamento sem amor, com uma mulher fútil, interessada apenas no material, em emprego arranjado na fábrica do sogro rico, sem ser reconhecido como o grande médico que ele queria ser, e com uma amante a quem não ama.

Mas uma notícia agita seu coração, Olívia está de volta, e ele precisa vê-la, vai ao encontro dela, e lhe confessa toda a sua infelicidade, pede-lhe perdão e ela o perdoa sem hesitar e lhe confessa, que o ama e muito, e que tem o presente mais lindo que ele poderia lhe dar, e apresenta-lhe Anamaria, sua filha.

Enquanto todas essas memórias veem a sua mente, ele chega ao hospital, mas infelizmente é tarde, Olívia morreu. A partir daí a história segue no presente, ele passa a tomar conta de sua filha, e descobre as cartas que Olívia nunca lhe enviou, e fica sabendo sobre sua filha, o quanto Olívia o amava e via nele o homem que ele nunca foi capaz de enxergar. Depois da morte de Olívia, ele passa a ser um homem melhor, forte e corajoso, ele toma coragem e separa-se da esposa e abandona a amante, deixa seu lugar de luxo e conforto e vai viver com a filha, e começa a realizar o sonho de clinicar os pobres. Na sua nova vida Eugênio vai aprendendo a viver em um mundo mais simples, respeitar as pessoas e as suas tristeza, a encontrar a si mesmo, e encontrar o caminho do perdão e da aceitação.

"Olhai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e no entanto nem Salomão em toda sua glória se cobriu como um deles".

O romance narra a trajetória da vida emocional de Eugênio, através de sua vida social e seus conflitos interiores. No início, ele é mostrado como um homem frio, infeliz, complexado, que não consegue gostar do pai por ele ser pobre, e por mais que se esforce, ele não consegue, e o que agrava o seu remorso, é que o pai faz tudo por ele, o que o deixa péssimo, infeliz, sem saber o que fazer.

Mesmo estando na faculdade e convivendo com pessoas ricas, ele ainda se sente inferior, sujo, não merecedor de muitas coisas. Eugênio mesquinho, interesseiro, egocêntrico, manipulador, é impossível gostar do personagem.  Mas a história segue em seu lirismo romântico e Eugênio começar a sofrer mudanças em sua vida, ele descobre que o dinheiro não traz felicidade, que abandonou o único amor de sua vida por nada, e que por mais que se conquiste tudo, a morte virá nos arrebatará, e será que vale apena perder tempo com coisas inúteis e deixar a vida passar?
 
Enfim a obra é uma crítica a sociedade fútil e vazia, acúmulos de riquezas sem olhar a quem, a hipocrisia da vida social, reflexão sobre o mundo, a vida e nossas decisões, e o mais interessante, sobre Deus, uma obra que traz várias especulações, perguntas e até respostas sobre Deus, sua existência e seu amor. Uma bela obra escrita de forma simples, que cativa e nos faz pensar em tudo o que nos cerca com novos olhos."

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Noite na Taverna - Álvares de Azevedo

Sinopse: Proporciona ao leitor uma viagem ao mundo fantástico da melancolia e morbidez que caracterizam a época em que viveu Álvares de Azevedo. Numa taverna, um grupo de conhecidos reúne-se para espantar o tédio com o vinho nos lábios e contos macabros afluindo da mente.

"Ergui-a do leito, carreguei-a com suas roupas diáfanas, suas formas cetinosas, os cabelos soltos úmidos ainda de perfume, seus seios ainda quentes…
Corri com ela pelos corredores desertos, passei pelo pátio—a ultima porta estava cerrada: abri-a. Na rua estava um carro de viagem: os cavalos nitriam e escumavam de impaciência. Entrei com ela dentro do carro. Partimos. Era tempo. Uma hora depois amanhecia."


Sempre fui fã de Álvares de Azevedo,  principalmente dos poemas sombrios e melancólicos que ele escreveu, mas nunca havia lido nenhuma obra dele que não fosse as suas poesias. Essa obra me surpreendeu deveras, pois não sabia o que esperar dela, e foi quase como ler alguma obra de Byron ou Edgar Allan Poe, não tem como não notar como a influência desses autores sombrios tiveram na vida de Álvares de Azevedo.
 
Noite na Taverna foi publicada após a morte do autor ano de 1855. O livro é composto por sete contos, a primeira parte é uma introdução e os demais contos tem por o subtítulo o nome de cada personagem que irá contar a sua história.

Uma noite do Século: O primeiro capítulo traça o cenário da taverna e apresenta os personagens em uma roda de bebedeira e devassidão, em seguida os personagens (Solfieri, Johann, Gennaro, Bertran, Hermann e Arnold) contam cada um a sua história em tom notívago, sombrio e vampiresco.

Solfieri: conta uma história de quando estava na Itália, em Roma. Em uma noite fria e chuvosa, ele se depara com alguém chorando em uma janela. E ao ver quem chora, descobre uma mulher de deslumbrante beleza. Ela deixa a casa e ele a acompanha até um cemitério próximo. Lá, a mulher chora ajoelhada diante de uma lápide enquanto Solfieri adormece.
Ele ficou tão encantado por ela que nunca conseguiu esquecê-la, um ano depois, vagando pelas ruas de Roma após uma noite de muita farra, entra sem saber como em uma igreja. Vê um caixão e fica pasmo ao ver que quem está no caixão é a mulher do cemitério. Percebe que ela ainda vive, e decide levá-la para a sua casa. Chegando em casa, a mulher morre dois dias e duas noites depois, de uma febre muito alta. Solfieri a enterra em seu quarto e encomenda uma estátua da defunta.

Bertran: narra seu caso de amor por uma espanhola de Cádiz chamada Angela. Ele vive intensamente esse amor, mais seu pai, que mora na Dinamarca o manda chamar pois está muito doente, ele vai ao encontro do pai e volta para Angela dois ano depois, mas ele a encontra casada e com um filho, mas a paixão de ambos não morreu e decidem continuar se amando, porém o marido descobre tudo, antes que ele a mate, ela mata seu marido e filho, fugindo em seguida com Bertram.
Um dia, sem maiores explicações, ela o deixa. Ele passa a viver desesperado tentando esquecê-la, um dia é atropelado por uma carruagem, sendo socorrido em seguida por um velho que tem uma filha de dezoito anos, ele se encanta pela moça e decidem fugir juntos, mas logo ele se cansa dela e a vende para um pirata, desgostosa e infeliz e moça envenena o pirata e em seguida se joga nas aguas do oceano.
Ele vai para a Itália, e lá decide suicidar-se, mas é salvo por um marinheiro a quem mata sem o querer. Mas é resgatado e passa algum tempo no navio, conhece a esposa do capitão e se apaixona por ela, sendo logo correspondido. O navio é atacado por piratas e afunda, salvando-se apenas o capitão, sua mulher e Bertram. Após algum tempo, sem água e sem comida, os três tiram a sorte para ver qual morrerá e servirá de alimento para os outros. O capitão perde, mas não aceita seu destino e luta com Bertran por sua vida, mas acaba perdendo, assim o capitão serve de alimento para os dois, mas a 'comida', eles estão doidos de fome, mas ainda resistem, quando chegam a praia, estão desvairados e Bertran acaba matando a mulher.

Gennaro: Conta que aos dezoito anos foi aprendiz de um pintor chamado Godofredo Walsh. Que se casou com uma moça jovem chamada Nauza, que era apenas dois anos mais velha que sua filha. Gennaro se apaixona pela esposa de seu mestre. Mas Laura a filha do pintor ama Gennaro, e dedica todo o seu amor a ele, que acaba não recusando, mas tempos depois ela engravida dele, mas quando lhe propõe casamento, ele diz que não a ama, para que o bebê não nasça ela decide tomar veneno e acaba morrendo.
O pintor não sabe de nada e depois que a filha se foi ele passa a visitar todas as noites o seus quarto e Gennaro passa a dormir com a mulher dele. Desconfiado, o velho faz Gennaro confessar todos os seus atos, depois o leva a um pequeno precipício a fim de matá-lo, mas Gennaro acaba sobrevivendo, decide voltar a casa do pintor para se vingar, mas chegando lá, encontra sua amada Nauza e o pintor mortos.

Claudius Hermann: é um apostador e é em uma corrida de cavalos que ele vê pela primeira vez a bela duquesa Eleonora, e acaba se apaixonando Depois a reencontra no teatro e passa a segui-la durante uma semana, querendo tê-la para si. Ele a deseja tanto que consegue entra no quarto da duquesa e coloca um sedativo em seu vinho, aproveitando-se dela e voltando várias vezes depois.
Em uma dessas noite, o marido dela, o Duque Maffio, acaba bebendo um pouco do narcótico por acidente. Claudius, então sequestra a duquesa. Ao chegarem a uma estalagem, no outro dia, ela acorda e ele lhe conta tudo, forçando-a a ficar com ele.Alguns dias depois, quando volta para casa, encontra ela e seu marido mortos sobre a cama.

Johann: A história narrada por Johann tem início em uma taverna. Ele estava jogando bilhar e perdendo para o seu adversário, um rapaz louro chamado Arthur, porém quando chega a ver de Johann jogar, Arthur esbarra na mesa, desviando as bolas e ele acaba perdendo. Johann irritado, desafia o rapaz para um duelo de morte. Partem para um hotel para pegar as armas, mas antes do duelo Arthur escreve dois bilhetes. Arthur perde o duelo, e pede que Johann pegue os bilhetes. Um dos bilhetes é endereçado a sua amante, contendo um endereço e uma hora marcada, acompanhado de um anel. 
Johann vai ao encontro, que é um lugar as escuras, mas acaba não vendo a amante de seu adversário, ele dorme com ela e quando sai do quarto é atacado por um vulto. Ele se defende e tudo vira uma luta e ele acaba matando seu agressor. Arrastando-o para a luz, descobre que o vulto era seu irmão, e a moça com quem dormira, sua irmã.

O Último Beijo de Amor:  É noite alta na taverna, todos dormem. Um mulher pálida, vestida de negro adentra o aposento procurando alguém. Vê Arnold, tenta beijá-lo, mas o deixa em paz, volta-se para Johann. Traz consigo uma lanterna e um punhal,  crava o punhal no pescoço de Johann. 
Ela vai até Arnold e o desperta, ele a reconhece como irmã de Johann, mas agora ela é a prostituta Giorgia, ele pede que o chame pelo seu nome verdadeiro, Arthur. E assim ele recorda-se do duelo, do tempo passado no hospital para se recuperar, o desespero e a vida de devassidão a que se entregou por não encontrar mais Giorgia. 
Ele deseja ficar com ela, mas a Giorgia acha que é tarde demais, assim pede-lhe um beijo de despedida, pois vai morrer. Leva Arnold até o corpo de Johann, e conta-lhe que o matou por ter sido por ele desonrada, a ela que era sua irmã. Arnold fica horrorizado, Giorgia cai no chão, desesperado Arnold pega um punhale crava-o em seu peito caindo sobre sua amada, morrendo em seguida.

Logo nas primeiras páginas, a obra já nos mostra o forte clima da geração do mal do século, através da irreverência, divagações filosóficas, sofrimento por amor, lascívia e principalmente a morbidez. Os personagens tem uma visão macabra do amor, e por causa dele tornam-se violentos e cruéis, cheio de vícios e dor, são libertinos e assassinos. Em cada relato contado vai surgindo um clima inumano e bizarro, repleto de temas como; violência, corrupção, incesto, adultério, necrofilia, traição, antropofagia e assassinatos. 
 
Ao ler essa obra realmente me surpreendi com o modo que Álvares de Azevedo a escreveu, se não fosse pela linguagem poética lírica da obra, poderia dizer que o livro fora escrito por um autor contemporâneo. 

Apesar de ter gostado muito da obra, achei forte demais os personagens matarem tudo e todos em nome do 'amor', além de fazerem coisas bem bizarras por causa dele, eles parecem ter uma visão meio doentia e obsessiva em relação ao que eles chama de amor, o que torna tudo muito mais sombrio e aterrador. Mas sem sobra de dúvida essa é uma verdadeira obra fantástica dos nossos clássicos brasileiros.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Inocência - Visconde de Taunay

Sinopse: "Inocência" é um marco do Romantismo e também um dos melhores exemplos de literatura regionalista, revelando detalhadamente a vida sertaneja do interior do Mato Grosso na metade do século passado. Fiel à tendência romântica, o romance possui no seu núcleo uma história de amor impossível: a jovem cabocla Inocência está prometida por seu pai ao rude sertanejo Manecão, mas apaixona-se pelo forasteiro Cirino, gerando uma série de conflitos devido ao rigoroso código de honra da época.

"Com certeza para o público atual há uma certa dificuldade em ler um romance escrito no sec. XIX. Pode parecer uma tarefa pouco prazerosa, e além da dificuldade de compreender bem o sentido das palavras e expressões, das estranheza da cultura do século passado. Por isso poucos jovens sentem qualquer vontade de lê-los. Mas não se deve usar esses pretextos para deixar de ler nossos clássicos.

É numa região rústica do interior do Mato Grosso do Sul que transcorre a história. Única filha de Martinho dos Santos Pereira, um viúvo que vive num sitio isolado. Um dia em uma de suas viagem ele encontra Cirino no caminho, um prático de farmácia que se passava por médico. Ele é levado de bom grado por Pereira a sua casa para que ele tratasse da saúde de sua filha Inocência.
Assim que ele a vê, toma-se por uma paixão arrebatadora. Apesar de Inocência viver praticamente reclusa no fundo da casa, os breves contatos com Cirino, também despertam em Inocência a chama da paixão.

Mas isso perturba tanto Cirino, quanto Inocência, pois ela está prometida ao Manecão, um rude vaqueiro do lugar, e jamais Pereira estaria disposto a desconsiderar o compromisso. Ambos se veem desesperados para ficarem juntos, mas temem o que pode acontecer se caso Pereira descubra o amor deles. Juntos tentam achar uma maneira de ficarem juntos sem ter que desonrar a família de Inocência.

O romance Inocência faz parte da tendência regionalista, lançado em 1872, esse romance alcançou popularidade, sendo até hoje um dos mais lidos e reconhecido pela crítica.
O mais interessante desse livro romântico e que Taunay evitou o sentimentalismo exagerado de outro escritores românticas. Evidenciando em seu livro demonstrando conhecer bem a região, descreve o espaço com detalhes realistas e explora bastante a linguagem pitorescas dos personagens.

Além de retratar muito bem o código moral da época, quando Pereira diz que prefere ver a filha morta a sua desonra. Um interior do Brasil, com seus tipos humanos característicos e suas rígidas normas de comportamento social e familiar.
Inocência é vista como uma história de amor e de paixão despertada naturalmente por dois jovens, mas é aquela paixão impossível porque não corresponde à vontade dos pais, além de ser também um amor perigoso, por ser despertado de modo repentino e avassalador.

O romance é trágico, e tem um final triste. Mas cada um demonstra de forma até mesmo desesperadora o amor que sentem, capazes de morrerem se ficarem um sem o outro.
Graças a Deus não vivi naquela época, pois a mulher era totalmente desvalorizada e tidas como levianas, por mais "santa" que se fosse, e muitos pais consideravam um desgraça ter uma filha mulher, pois só dava trabalho e preocupação.

A única dificuldade mesmo para se ler esse livro são as palavras regionalista, que faz com que se perca a cadência da leitura, para poder interpretar o que se foi dito. Mas se você não se importar com isso, terá uma boa leitura."

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Perto do Coração Selvagem - Clarice Linspector

Sinopse: A amoralidade diante da maldade. O instinto na condução da trama, com uma certa dose de automartírio. A história de Joana — não a Virgem d’Orleans, mas a personagem de Clarice Lispector nesta obra de estréia, marcou a ficção brasileira em 1944. A narrativa inovadora (ainda hoje) provocou frisson nos círculos literários. A técnica de Clarice Lispector funde subjetividade com objetividade, alterna os focos literários e o tempo cronológico dá lugar ao psicológico (o presente entremeado ao intermitente flashback).

A prosa leve discorre com fluência e fluidez nos meandros da protagonista, na sua visão de mundo e interação com os demais personagens. Tudo isso revelou Clarice Lispector como mais que mera promessa na prosa da Geração de 45. É o texto do sensível e do imaginário, ora enfrentando ora diluindo-se aos incidentes reais de Joana.

Deve-se ler a obra com instrumentos de anatomia: usa-se bisturi para dissecá-la e pinça para estudar os personagens como órgãos autônomos, que se ligam por estranhas artérias e nervos à personagem de coração e cérebro Joana. São eles: o pai prematuramente falecido, incentivador das brincadeiras na infância; a tia assustada com as estripulias da órfã, a quem chama de víbora; o tio fazendeiro, afetuoso com Joana e abúlico diante das reclamações da mulher; o professor confidente e orientador (como a paixão da puberdade); Otávio, o rapaz que se casa com Joana ao romper o noivado com Lígia, de quem posteriormente se torna amante; Lígia, grávida de Otávio, conta tudo à protagonista; o homem sem nome, sustentado pela mulher, participante silenciosa do romance clandestino e sem compromisso dele com Joana.

A leitura é caleidoscópica. A protagonista ora tem uma cor, ora outra, conforme o momento ("real" ou onírico). As cores dançam no enredo misturado ao cenário e às sensações da menina-mulher-amante. Joana desfila na vida dos outros personagens, destilando o veneno de víbora, instilado com ironia e respostas cruéis diante dos fatos. A leitura também é lúdica, quando o leitor tenta adivinhar o que a autora preparou páginas adiante e se surpreende com o que presencia. O livro, como os demais títulos de Clarice Lispector relançados pela Rocco, recebeu novo tratamento gráfico e passou por rigorosa revisão de texto, feita pela especialista em crítica textual Marlene Gomes Mendes, baseada em sua primeira edição.

"Em "Perto do coração selvagem", Clarice narra a história de Joana, uma moça que logo fica órfã de pai e mãe, e que desde sempre tem o costume da introspecção.
Joana expressa, por fluxos de consciência, sua vida interior, contrapondo suas experiências de menina às de adulta, mergulhando ora no passado, ora no presente, segundo o fio condutor da memória. A infância viveu ao lado do pai. A mãe, Elza, morreu, quando ela ainda era muito pequena; Conhecia-a pelas descrições do pai. O tempo junto a este também foi curto, morreu quando ela ainda era menina. Órfã, Joana vai morar com os tios. Um dia ao acompanhar a tia às compras, como num teste para si mesma e causar espanto aos outros, Joana roubou um livro, fazendo com que a realidade de sua relação com aquela família viesse à tona. Apavorada com esse tipo de conduta, a tia pediu ao marido que encaminhasse a menina a um colégio interno. Depois de sair do internato, Joana casou-se com Otávio, que divagava tão intensamente quanto ela. Mesmo casado, mantinha um relacionamento amoroso com, Lídia, sua ex-noiva, a quem engravidou. Isso aparentemente seria a causa da separação entre Otávio e Joana. Depois da separação, um homem desconhecido passou a seguir Joana, durante algum tempo. Um certo dia, ela se viu na casa desse estranho e, sem sequer saber-lhe o nome, desejando conhecê-lo por outras fontes e por outros caminhos, com ele teve alguns encontros. O desconhecido que, para ela, era mais um salto para sua auto-investigação, um dia, acabou partindo. Ela, também, embarcou sozinha para uma viagem não muito bem definida.

Falar desse livro é realmente difícil, ao lê-lo percebe-se porque causou tanto frisson nos círculos literários, esse livro de estreia de Clarice é extremamente "perturbador", mostra que mesmo tão nova Clarice já possuía uma veia literária extraordinária.

A narrativa do romance é quebrada, feita de flashbacks da memória da personagem principal, que se fundem com seu dia-a-dia, com os diálogos com os outros personagens, que na verdade são monólogos..

É uma exploração íntima da personagem e seu lado mais obscuro e terno ao mesmo tempo, sem subterfúgios, sem palavras doces. Este livro nos faz sentir a sensação que percorre as veias depois da leitura é de um mergulho tão profundo em si mesmo, tão profundo que não se consegue voltar a superfície como antes."